Um pequeno molusco invasor, com menos de 22 milímetros de comprimento, está chamando a atenção de cientistas pelo ritmo acelerado de sua expansão na Amazônia. O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), espécie originária do Sudeste Asiático, apresentou um crescimento populacional muito acima do esperado no rio Tocantins, acendendo um alerta para os impactos ambientais e econômicos na região.
O primeiro registro da espécie na Amazônia brasileira ocorreu em agosto de 2023, no rio Tocantins, no estado do Pará. Pouco mais de um ano depois, pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Universidade Federal do Pará (UFPA) realizaram novas coletas e encontraram uma população já amplamente estabelecida.
Explosão populacional surpreendeu os pesquisadores
As amostragens foram realizadas em outubro de 2024, na região do Pedral do Lourenço, entre os municípios de Marabá e Tucuruí. Os resultados impressionaram: a densidade média foi de 11.940 indivíduos por metro quadrado, chegando ao máximo de 15.849 indivíduos por metro quadrado em um dos pontos analisados.
Para efeito de comparação, levantamentos realizados em 2023 haviam registrado apenas 88 indivíduos por metro quadrado, indicando que a espécie conseguiu se reproduzir rapidamente e colonizar novas áreas em um curto intervalo de tempo.
Os exemplares encontrados apresentaram comprimento médio de 12,2 milímetros, variando entre cerca de 2 e 22 milímetros, evidenciando diferentes estágios de desenvolvimento e indicando que pelo menos um ciclo reprodutivo já ocorreu na região.
Uma ameaça para o ecossistema
Embora pequeno, o mexilhão-dourado pode causar grandes alterações ambientais. O molusco vive fixado em superfícies rígidas e forma colônias extremamente densas.
Sua alimentação ocorre por meio da filtração da água, removendo grandes quantidades de plâncton e matéria orgânica. Esse processo reduz a disponibilidade de alimento para peixes, larvas e outros organismos aquáticos, alterando o equilíbrio da cadeia alimentar. Além disso, a espécie pode acumular metais pesados e outras substâncias tóxicas presentes na água, que podem ser transferidas para níveis superiores da cadeia alimentar.
Prejuízos também atingem infraestrutura
Os impactos não se limitam ao meio ambiente. O mexilhão-dourado também representa um problema para atividades humanas ao aderir a estruturas como:
- Tubulações de captação de água;
- Usinas hidrelétricas;
- Pontes e pilares;
- Embarcações;
- Equipamentos de irrigação.
Com o tempo, o acúmulo dos moluscos pode reduzir o fluxo de água, aumentar custos de manutenção e provocar danos em sistemas de abastecimento e geração de energia. Esses prejuízos já foram registrados em diversas bacias hidrográficas brasileiras desde a chegada da espécie ao país, na década de 1990.
Controle é o maior desafio
Segundo os pesquisadores, eliminar completamente o mexilhão-dourado após sua instalação é uma tarefa extremamente difícil. Por isso, a principal estratégia passa a ser o monitoramento contínuo da invasão, a adoção de medidas de controle e a prevenção da dispersão para outros rios da Amazônia.
O estudo destaca que ampliar o acompanhamento do rio Tocantins e de seus afluentes será fundamental para compreender a velocidade da expansão e orientar ações que reduzam os impactos ambientais e econômicos provocados por uma das espécies invasoras de maior preocupação no Brasil.